Gritos e Risos!


Aspirações...

Quando estava no pneu, me via sobre aquele caminhão ou observava o meu uniforme enlameado e pensava: “O que é que eu estou fazendo aqui?”. Sem encontrar respostas, resignava-me continuando meu serviço. Quando pedi as contas da prefeitura para dar aula, me vi perdido entre aviões de papel, gizes que também voavam, celulares tocando música sertaneja, berros imbecilizados e tudo isso enquanto eu tentava falar alguma coisa sobre oração subordinada ou figuras de linguagem. No auge do meu desespero silencio, perguntei-me novamente: “O que é que eu estou fazendo aqui?”. Voltar para o pneu? Voltar e ter a sensação de que não devia ter voltado? Continuar e ter a certeza de que me arrependi, de que fiz a escolha errada? A cada manhã que saia de casa, pensava que o meu caminho poderia estar sendo outro naquele momento. Tinha a certeza comigo de que se assim fosse, eu não estaria totalmente bem, mas estaria livre de garotos mal educados e coordenadoras estressadas. Mas só pensava, nada agia. E isso é bem do meu feito. Agüentar o sofrimento além do que posso suportar para ver até aonde as coisas podem ir, que rumo podem seguir. “Mas depois da chuva passada, céu azul se apresentou”. Hoje, percebo que dia-a-dia as aflições foram se esvaneceram. Aos trancos e barracos, já cheguei quase ao fim do ano. Só o que posso dizer é que às vezes é necessário trocar o certo pelo duvidoso. O certo, o seguro, era eu estar na prefeitura ainda que insatisfeitos e garantir meu poucos de quinhentão por mês. E deixar de fazer realizações por causa de quinhentão? Não, isso é não agir sensatamente. Por isso o meu conselho é esse: não façam concurso em que se ganhe pouco mais, menos ou igual ao quinhentão. Nesses casos, a estabilidade também estabiliza nossos sonhos. Que continuarão sendo sonhos, mas nunca sairão do lugar. A garantia de salário todo mês só garante as nossas dívidas. Logo surgem os descontos em folha. E em pouco tempo não recebemos nada por mês, exceto o holerite.

Agora não, sinto que as coisas estão mudando. Tenho um enorme desafio pela frente. E é isso que motiva, sem me amedrontar. O bom da profissão é exatamente: nunca sabemos o que exatamente encontraremos pela frente. E podemos fazer tudo novo a cada dia. Mudar métodos. Mudar as aulas. Somos pagos para aprender. Somos pagos para estudar. O que não deixa de ser um privilegio nesse mundo onde tantos pagam para não estudar. Reclama-se muito. Reclama-se de barriga cheia. Não ganhamos tão mal assim. E nem trabalhamos tanto assim. Corrigir provas não é tão chato quanto parece ser e é até bastante divertido. O que nos fadiga de verdade são os diários. Tenho também desmentido algumas falácias; até agora não encontrei uma escola que obrigue professores a dar nota. Pelo contrário, tenho visto coordenadoras emputecidas quando professores fazem isso. Em escola particular e muitos menos na pública, falta material. Pelo contrário, sobra! É só saber usar! Escolas não se preocupam com tanto com planejamento de aula e muito menos com diários...

Enfim vamos aprendendo coisas que as faculdades jamais ensinarão....

 

 

Planos para 2010

 

1-     Aulas de inglês...

2-     Aulas de violão...

3-     Aulas de canto...

4-     Vídeos

5-     Autoescola

6-     Mestrado

7-     Carro Zero km

 

MAS PRA TUDO ISSO, PRECISO CONTINUAR DANDO AULA, É CLARO!

 

 

 

 



Escrito por C.Y às 01h09
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Segredos de Fátima

Fui criança só às vezes. E as vezes em que fui mais criança foi quando estive em  Fátima do Sul. Uma  cidade do interior, um lugar pequeno onde não tem muito a se fazer, senão viver. Nessa pequenina partícula de mundo, moram minha avó, minhas tias, meus padrinhos e minhas primas que tentei por diversas vezes buli-las sem sucesso. É onde também reside meu único primo, meu único parente com quem consigo ter de fato alguma afinidade. Apesar de nos relacionarmos mais pela internet, pois sempre que nos encontramos pessoalmente ficamos olhando um para o outro com cara de bobo como se fôssemos estranhos. E somos. Mas a estranheza só dura até o próximo encontro no msn. Ele tem 15 anos e é de uma inteligência surpreendente. Sabe de coisas que eu só fui saber quando tinha mais de 20. E sabe de outras que eu não sei até hoje. É entendido de todos os ismos da vida; socialismo, nazismo, fascismo, bolchevismo, capitalismo, e etctrismo. Isso pra mim é tudo ainda muito grego. Durante anos levei uma vida muito fútil. E agora tenho tentado aos poucos me recompor. Mas é difícil, a minha defasagem cultural é muito grande. E muitos acham que sou um “gigante intelectual” porque sou professor e me formei em Letras. Como são tolos! Mas eu falava é da minha doce Fátima...

Como é comum em cidades pequenas, o tempo passa e quase nada muda. Os pontos turísticos continuam sendo os mesmos, apenas com algumas alterações. Como era de se esperar, o principal ponto daqui é uma praça. Já a visitei hoje. E o fiz obviamente carregado de lembranças. Que sensação estranha pisar o chão que meus pés outrora bem menores também pisaram. Ainda está lá o mesmo coreto. Aquele onde nunca houve nenhuma apresentação. Só serviu de palco para as minhas correrias de criança entre mim e minhas primas. Já quase não existem gramados, aqueles onde rolávamos e voltávamos para a casa com o cabelo cheio de folhas e capins e o corpo envolto em coceiras. Não encontrei nenhuma daquelas torneiras à beira da rua, nas quais íamos tomar água e quase tomávamos banho tamanho jato d’água. E mais tristemente e lamentavelmente não existe mais o parquinho, o que a minha menor das sobrinhas me revelou hoje aos prantos. Era o parquinho a pedida de todo fim de tarde. Lá havia um disputadíssimo balanço. Naquela época, nossa única cobiça era termos um adulto por perto com braços incansáveis para nos empurrar bem forte. Nessas horas, eu sempre achava que alcançava o céu e alcançava mesmo. Todos os meus problemas do meu pequeno mundinho se resolviam ali. Nem se quisesse me iludir novamente, poderia. Não existe mais o parquinho. O que existe é uma casa de Papai Noel que obviamente só decorada no fim do ano.  Daquele tempo mesmo, o que existe em maior número são os bancos que agora receberam um cercado em volta para proteger o que resiste de jardim. Estranho aprisionar a delicadeza para protegê-la, quando o que ela mais precisa é de liberdade para sobreviver. Mas em Fátima eu também fui muito triste, nesta cidade eu tive certeza de que amo minha mãe e chorei em silêncio, no escuro, todas as mais tristes e mais sentidas lágrimas que a sua ausência me provocou, a desestrutura do meu pequeno mundo.

Estou numa lan house, as daqui fecham tarde. Aqui, Riobaldo, viver não é perigoso.

 

P.S. “A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores e o mesmo jardim. Tudo é igual, mas estou triste porque não tenho você perto de mim!”

Os bregas também amam!



Escrito por C.Y às 00h06
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




“eu disse adeus”

“- Pode me dizer que caminho devo seguir?

 

-Isso depende do lugar onde você quer ir

 

- Não tenho destino certo.

 

- Nesse caso, qualquer caminho serve.

 

- Servirá se levar a algum lugar

 

O trecho acima é o dialogo entre Alice e o Gato careteiro em Alice no País das Maravilhas. Acho que foi lendo isso que realmente consegui chegar a uma decisão final. Em poucos segundos, consegui pensar, lembrar e resolver uma vida inteira. Então, quando não se tem um destino, qualquer caminho serve? Nesse caso, tanto faria eu ficar no pneu ou ficar nas idas e vindas pelas escolas em que estou. Mas acho que tenho comigo um destino. Quando entrei no pneu, o meu objetivo era ficar por lá só um ano. Fiquei lá três anos e meio. Tempos demais para mim que só queria um meio de custear as mensalidades da faculdade. A faculdade acabou e eu ainda fiquei lá mais meio ano após o término dela. Em abril, surgiram as aulas à noite. Até aí, tudo se conciliando. Pneu de manhã, preparação de aulas à tarde e à noite, regência. Tudo tranquilo. Afinal, já estava mesmo acostumado como duplas jornadas. Foi assim nos anos de faculdade. Nesse ínterim, sempre dizia comigo que assim que aparecesse uma oportunidade de emprego, um contrato de seis meses numa pública ou uma vaga na particular, eu largaria o pneu sem titubear. A oportunidade apareceu na tarde de 14 de setembro passado. Estava me preparando para sair de casa para ir até a biblioteca do centro onde estudaria para um concurso que fiz dias atrás e não tive sucesso algum quando o telefone tocou. Era a coordenadora de uma escola que eu nunca tinha ouvido falar e muito menos tinha deixado currículo lá me dizendo que eu tinha sido indicado por não-sei-quem de não-sei-de-onde e que deveria comparecer à escola naquela mesma tarde para uma entrevista. Fizeram as velhas perguntinhas de sempre. as típicas “tem experiência”, “onde você já trabalhou”, “onde você estudou”, “você acha que dá conta”. Verdade aqui, mentirinha lá, aumentadinhas acolá. Acabei sendo convincente. Caí nas graças da coordenadora e diretora, gostaram principalmente da parte em que disse que ia entrar no mundo dos alunos. Fui chamado para fazer uma aula-teste no dia seguinte. O que me tomou de imenso pavor. Me senti totalmente despreparado. Senti que de fato tinha feito o pior curso do mundo. Pois na faculdade nem lembro de se ter comentado de situações parecidas. A coordenadora me ofereceu livros para preparar e sugeriu sugerir um conteúdo. “Tudo, menos orações subordinadas!”. Foi o que pensei comigo. Não deu outra. Esse foi o conteúdo escolhido. Nisso, meu pavor só aumentou. “Passos indecisos caminhei” até uma mesa de lanchonete onde tomei um suco enquanto folheava os livros pensando no que poderia fazer naquela aula. Comprei caderno e caneta e fui pra biblioteca rabiscar alguma coisa. Mas acho que fiz isso mais pra me enganar mesmo. Eu não sabia direito o conteúdo. Queria só um lugar calmo para estudar com calma. Acho que consegui aprender o suficiente naqueles instantes. A minha aula acho que foi boa. A plateia é que não colaborou. Alunos constantemente inquietos, indisciplinados, desrespeitosos, infantis, metidos a besta, insuportáveis, a grande maioria é assim lá. A cada ressalva é comum se ouvir “eu pago essa p*rra e faço o que eu quiser” Coordenação? Não adianta. Direção? Não adianta. Pais? Não adianta. A cada reprimenda eles retornam mais vitoriosos e agressivos. Nada os detêm. São sem limites. E assim tem sido e também o foi no meu primeiro dia, o de teste. A sala pegando fogo de todas as maneiras e o diretor passeando nos corredores para ver o que acontecia lá dentro. Nesse momento, pensei: “to demitido”. Depois ele me chamou na sala dele e me disse “passei lá, tava tranquilo!’ Um Dom Quixote! Não há o que negar.

Depois de duas semanas de desespero, resolvi entregar as pontas. Pegar meu banquinho, sair de fininho e voltar pro pneu no qual eu já estava levando inúmeras faltas. Procurei a diretora e expus minhas razões para minha demissão. “Como você vai fazer isso comigo?”. Essa foi uma das objeções que ela me fez. Combinamos de eu corrigir as provas que alguém aplicaria no dia seguinte, fechar as notas e tchau. No dia seguinte, a história mudou. A professora que iria me substituir não apareceu. O que lhes deu tempo para me convencer ficar lá novamente, no inferninho. Mas ainda farei o possível para mudar alguma coisa por lá, já que o mundo não é mesmo possível.

Nisso, o meu objetivo era apenas pedir o meu afastamento de dois ou três anos do pneu. Já que depois de três anos de estágio probatório, isso é possível. E eu já estava lá há três anos e meio. Pensei que fosse chegar e pedir e já estaria tudo resolvido. Mas os recursos humanos são sempre desumanos e impuseram-me uma infinidade de empecilhos. Eu não poderia pedir afastamento porque minha estabilidade ainda havia sido publicada no diário oficial. Eu poderia fazer o pedido que seria analisado pela chefe do CCZ e quase-certeza que negado. No entanto o fiz. E não tive respostas, só faltas.

Nesse ínterim pneu x escola, fui também chamado para dar aula à tarde numa substituição de 30 dias. O que foi também um estímulo para abandonar o pneu e transformou minha vida numa escassez total de tempo e num excesso tremendo de correria. Terças, quartas e quintas, aulas de manhã. Quartas, quintas e sextas, aulas à tarde. De segunda à sexta, aulas à noite. Resumindo: segunda, aula só à noite; terça, aula de manhã e à noite; quarta, aula de manhã. Tarde e à noite, com a vantagem que de manhã são só os primeiros tempos; quinta, três turnos novamente e o dia mais corrido, pois de manhã saio 11:20 e quase não tenho tempo de almoçar, motivo pelo qual tenho andado de moto-táxi e almoçado pela rua ou comendo salgados vagabundos o que tem acabado com meu estômago e meu bolso; sexta, aula à tarde e à noite, mas de tarde só dois e à noite, só três! Beleza! Minha vida tem sido essa!

Essa semana, dei minha grande tacada final. Pedi as contas de vez da prefeitura. Já que me negaram o afastamento e em breve eu poderia ser exonerado por um tal “abandono de cargo público”. Me fizeram inclusive a indecente proposta de eu voltar a trabalhar enquanto vinha a resposta do afastamento que com certeza já seria não! Levei os uniformes todos e agora nunca mais voltarei pra lá...

Só lembranças de um tempo que passou!

 



Escrito por C.Y às 03h10
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Negra

Composição: Maurício Duboc / Carlos Colla

Ela é negra, negra, negra, como a noite
Cor do meu cabelo liso
Cor do asfalto onde piso
E me leva aos braços dela
Ela é quente, quente, quente, como um dia de verão
Como o sol que eu peço tanto
Que me faça igual a ela
Pra que eu viva junto dela
Pra que eu tenha a mesma cor

Ah! Quem dera eu esquecer
Da minha cor tão branca
E me perder nessa ilusão tão pura
Nessa ilusão tão meiga, nessa ilusão tão negra

Negra
Nessa ilusão tão meiga
Negra
Nessa ilusão tão negra
Negra

Ela é quente, quente, quente, como um dia de verão
Como o sol que eu peço tanto
Que me faça igual a ela
Pra que eu viva junto dela
Pra que eu tenha a mesma cor

Ah! Quem dera eu esquecer
Da minha cor tão branca
E me perder, nessa ilusão tão pura
Nessa ilusão tão meiga, nessa ilusão tão negra

Negra
Nessa ilusão tão meiga



Escrito por C.Y às 19h58
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Indigentes poéticos

Peter era seu nome. Na verdade, era Pedro. Mas ele adorava que o chamasse pela pronúncia americana. Até hoje, poucos sabem que seu nome era simplesmente Pedro. Peter, um jovem rapaz de 30 e poucos anos, ativo comerciante da vila. Dono da padaria Pão de Açúcar. Para mim, aquele pão era só de açúcar mesmo, só depois de muito tempo, fui saber que o nome do estabelecimento podia ser uma alusão a uma imensa pedra carioca. Mas a padaria de Pedro era tudo menos padaria. Era uma parada obrigatória nas entradas e saídas da escola que ficava bem de frente de sua padaria. Às dez pra sete, às dez pra uma, depois das onze da manhã e depois da cinco da tarde o ambiente tornava-se impenetrável. Uma porção de meninos uniformizados, apressados e com pouquíssimo dinheiro adentravam ao lugar querendo ser pequenos donos do mundo que ali se vendia. Balas, chicletes, paçocas, gelinhos, bolitas, skines, sonhos, salgados, tubaína no saquinho. Peter jamais se confundia. Mesmo com todo aquele burburinho de moleques, sabia exatamente o que cada um havia pedido e quanto devia dar de troco para cada. No fim, todos saiam satisfeitos depois da tumultuada espera para ser atendido. Eu também fui um fiel cliente de Peter. Comprei maciçamente as figurinhas de álbuns cujos prêmios nunca chegavam. Ou se chegavam era um resta 1, um jogo de damas, um jogo de copos, um dominó, um jogo da memória. Mas as televisões gigantes e as bicicletas de marchas inumeráveis, essas nunca chegavam. Meu pai me alertava para a enganação. Como se fosse possível alertar alguém contra os perigos de um sonho. A cada moedinha lá ia eu correndo comprar mais pacotes de figurinha. Lembro uma vez meu pai me deu um real, que naquela era muito dinheiro para uma criança, fui correndo buscar pacotes. Afinal, faltavam só algumas figurinhas e comprando bastante com certeza eu ia conseguir completar o álbum. Ledo engano. As figurinhas vieram todas repetidas. Troquei com um amigo, que minha família resolveu batizar não sei por que cargas d’água de “cara de coruja”, mas ele também já tinha quase todas, trocamos uma ou outra, as demais foram perdidas. Eu acabei por não completar meu álbum da Street Fighter. Eu nem gostava do jogo, mas completar aquele álbum era questão de honra. Nem preciso dizer da desonra que sofri nessa.

 

Continua...



Escrito por C.Y às 15h27
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Embalos de terça à noite ou "festa estranha com gente esquisita"

- Posso te fazer uma pergunta, tipo super INDISCRETAA!!??

- Pode.

- Você gosta de homens?

- Não, não gosto.

- Bom saber.

- Muitas pessoas me fazem essa pergunta...

- Como assim???

- Não que muitas pessoas façam, mas pensam.

- Ah, porque muita gente me pergunta se eu gosto de mulheres...

- E você gosta de mulheres?

-Não, não fazem meu tipo.

- Bom saber também.

- Eu não sei você, mas eu gostei de você.

- Eu também gostei de você. (mentindo)

(Onomatopeias de beijo com gosto do cigarro dela)



Escrito por C.Y às 13h45
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Uísques e Orquídeas

Definitivamente, a faculdade não me faz falta. Enquanto estava fazendo o curso, ficava sempre imaginando como seria tudo depois que ele acabasse. Temia nunca mais ver aquelas pessoas com que estudei. Foi sempre o que aconteceu com os meus tão coesos grupos que fiz na escola. No ensino fundamental e médio, juras de amizade eterna e promessas de encontros constantes não faltaram. No entanto, o tempo foi passando e cada um foi se debandando para um lado e desapareceram. Trocam- se números de telefone sem aviso. Esquecem-se endereços. Esquecem-se pessoas. Um dia, um encontro casual na rua, reaviva tudo em cinco minutos de conversa. Um como-vai-o-que-tem-feito, uma mexidinha no passado e a promessa de se marcar algo “qualquer dia desses”. Um dia que nunca chega. Com o advento da internet, pessoas distantes até mantêm algum contato de vez em quando. Mas no mais das vezes, não passam de pessoas penduradas na lateral dá página inicial do Orkut. Era o que eu temia que acontecesse com os meus amigos da faculdade. Com os da escola, depois de um ano findado, nunca se marcava uma mísera reunião. Não marcar encontros era uma forma de adeus inaudível. O íntimo de repente se tornava um estranho.

Outro dia, encontrei com o meu maior amigo de infância. Eu estava de a pé e ele montado numa moto, talvez a única coisa que ele tenha conseguido na vida, até hoje. Conversamos cerca de 40 segundos. Creia! Foram os piores 40 segundos da minha vida. Não tinha assunto. Mesmo com tanto tempo sem a gente se ver, parecia que eu não tinha novidade alguma para contar pra ele. Tudo que eu pensava em lhe contar me parecia que não ia despertar o seu interesse. Definitivamente, eu não sabia quem era o cara que eu tinha diante de mim. E um cara que empurrou carrinho comigo a minha infância inteira. O meu temor era que os amigos da faculdade com o tempo fossem se definhando nessa forma de relacionamento. Só isso me dava a vontade de nunca terminar a faculdade. Tinha a vinda da depressão como certa. E na verdade, chega uma hora em que a faculdade precisa acabar. É insustentável tanta pressão. Uma infinidade de matérias, a monografia que parece nunca desenroscar. Tudo isso vai nos dando  gastura. E você não vê a hora do ano estrebuchar para você se ver livre de tudo. E chega o momento que o preço da sua paz parece ser perder todos os amigos que você conquistou. Alguns eu sei que talvez não veja nunca mais mesmo. Não me importo com eles, pois quem se importa comigo me procura. E com quem eu me importo, eu procuro e me encontro entre goles de uísque e o aroma das orquídeas.

 

 

 

 



Escrito por C.Y às 01h45
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




A deusa da justiça

Ele não queria mexer no passado, mas o passado parecia querer mexer nele. Olhou desencorajado a comida que havia na panela. Só o mesmo cardápio de sempre: arroz, feijão e bife. Tudo feito por ele mesmo, às pressas e sem nenhuma dedicação. Um faminto temente a Deus talvez lhe lembrasse que ele tinha motivos para dar graças aos céus.  Mas ele só tinha mesmo motivos para lamentar. Arroz, feijão e bife era a única coisa que ele sabia fazer. E além do mais, não gostava nenhum pouco de cozinhar. Achava cozinhar para si mesmo o cúmulo da solidão. Não suportava a ideia de mastigar a comida e sentir nela o gosto de suas mãos. Ou sentir entranhado em suas unhas o perfume do alho. Para engolir a comida, só mesmo à base de goles de coca-cola. Foi o que pensou. Reuniu as únicas moedas que ainda restavam esquecidas no fundo de uma gaveta e foi para as ruas levando um casco nas mãos, um casco tão vazio quanto ele mesmo. O estabelecimento que vendia a coca não era um bar, era uma lojinha de importados contrabandeados do Paraguai. Lá, uma moça gigantescamente gorda atendia. Suas vestes pareciam lençóis cobrindo móveis numa casa velha. Mas ela parecia sorrir de acordo com seu peso. Era sempre tão simpática. Tão atenciosa. Tão meiga. Que ele mesmo se sentia constrangido de ter qualquer pensamento maldoso referente a toda àquela gordura da menina. Ele não entendia como ela conseguia ter tanta auto-estima mesmo sendo tão gorda. Afinal, que homem seria capaz de desejá-la? Há quanto tempo ela já não fazia sexo? Será que ela ainda era virgem como aquela cantora de um programa de calouros americano? Sua dúvida era logo sanada quando via umas criancinhas gritando “mãe”, “mãe”. Ela tinha filhos. Isso significava que ela tinha feito sexo ao menos para ter aqueles filhos. Ou seriam adotados? Ou seriam sobrinhos? Mas ela não tinha mais marido. Será que algum dia ela tinha sido uma moça bonita e magérrima e à medida que foi engordando, o marido foi deixando-a até deixá-la de vez. Tudo isso pensava enquanto a gorda se debruçava no freezer para busca a coca-litro. Também enquanto pensava nessas coisas, notou exposta na prateleira uma deusa da justiça em miniatura. Nunca tinha visto uma daquela tamanho, elas eram sempre gigantes como aquela que tem no centro da cidade em algum órgão da justiça. Mas aquela não. Era pequenina. Podia-se segurar na palma da mão. Triscar na balancinha que ela também trazia pendente. E olhar bem de perto para tentar adivinhar o que olhos vendados escondiam. Nunca fora experto em mitologia, mas sabia que aquela era a deusa da justiça. E mais do que isso lembrou na mesma hora que aquele dia era dia do aniversário da menina que por anos julgou amar e que agora é formanda em direito. E lembrava da data não apenas porque era aniversário de quem era, mas porque aquela data de traz pra frente tinha se transformado em muitas das suas senhas de banco e de e-mails. Tamanha obsessão. E toda vez que precisava criar uma nova senha repetia involuntariamente de propósito a mesma sequencia de números embaralhados. A gorda já tinha voltado com a coca. E ele perguntou o preço da pequena estatueta. Como se isso fizesse alguma diferença. Ele daria tudo o que não tinha para levá-la para a casa. Foi para a casa e voltou com mais dinheiro para tentar forjar uma pechinha. Tudo o queria era pôr em risco o ato insano. Conseguiu um ou outro real de desconto. Voltou para a casa com o garboso embrulho. Entrou em casa tentando esconder o presente dos olhos curiosos dos ausentes. Ligou para ela. Deu um tímido parabéns  e exigiu que viesse buscar o presente. Agora eram amigos. Mas ele não sabia se havia comprado o presente por recaída ou por amizade. Esperou. Ela não veio. A deusa da justiça foi injusta. Gostaria de arremessar o bibelô, afinal agora aquilo já era um bibelô, à parede e estilhaçar o objeto em mil pedaços. Ou guardar para quem merecesse. Talvez a gorda da loja. Talvez ela fosse mais sincera.

 

 

                                                                                             



Escrito por C.Y às 23h47
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Futuros Amantes...

Chico Buarque

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar
em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios
em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

 



Escrito por C.Y às 14h54
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




"Eu me amo"

Durante muito tempo, escrevi cartas. Escrevi poemas. Na verdade, letras de música que nunca receberam melodias. Colecionei lágrimas. Colecionei cicatrizes. E disfarcei, chamei tudo isso de amores não-correspondidos. Nunca houve amor nenhum. Tudo fora inventado por mim. Cultuei dores. Cultivei o sofrer. Achei que era poético querer morrer. De repente, me descobri. Tornei-me solteiro por falta de opção. Hoje, sinceramente, sou solteiro por opção. Saio a hora que quero. Com quem quero. Volto a hora que quero. Não tenho que ligar pra ninguém. Ninguém tem que me ligar. Não tenho que sentir ciúmes. Ninguém tem que sentir ciúmes de mim. Ninguém tem que mentir. E a verdade é que Eu Me Amo!

 

 

Eu Me Amo

Composição: Roger Moreira

Ultraje A Rigor

Há quanto tempo eu vinha me procurando
Quanto tempo faz , já nem lembro mais
Sempre correndo atrás de mim feito um louco
Tentando sair desse meu sufoco
Eu era tudo que eu podia querer
Era tão simples e eu custei prá aprender
Daqui prá frente nova vida eu terei
Sempre a meu lado bem feliz eu serei

Refrão
Eu me amo , eu me amo
Não posso mais viver sem mim }

Como foi bom eu ter aparecido
Nessa minha vida já um tanto sofrida
Já não sabia mais o que fazer
Prá eu gostar de mim , me aceitar assim
Eu que queria tanto ter alguém
Agora eu sei sem mim eu não sou ninguém
Longe de mim nada mais faz sentido
Prá toda vida eu quero estar comigo

Refrão

Foi tão difícil prá eu me encontrar
É muito fácil um grande amor acabar , mas
Eu vou lutar por esse amor até o fim
Não vou mais deixar eu fugir de mim
Agora eu tenho uma razão pra viver
Agora eu posso até gostar de você
Completamente eu vou poder me entregar
É bem melhor você sabendo se amar



Escrito por C.Y às 15h21
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Meu querido diário... (ou Uma semana de fúria...)

Depois de uma semana exaustiva de serviço, estou mais do que merecidamente de férias. Totalmente de férias só estarei por 15 dias. Pois já no dia 27 de julho, retorno à escola e no dia 31, retorno ao pneu. Mas será o suficiente para aliviar o caos que os diários de classe me fizeram viver dias atrás. Tudo o que passei me fez relembrar o primeiro contato com um diário, há mais de dez anos. Eu tinha 11 anos, estava eu no ano de 1998, na 5º Série do Ensino Fundamental, que hoje é sexto ano. A professora de Língua Portuguesa havia passado uma redação para a sala, havia pedido aos alunos que a lessem em voz alta. Quando chegou a minha vez, comecei a ler meu texto e comecei a achar que ele não estava tão bom quanto eu julgava, então comecei a ler algo que jamais fora escrito que comecei a inventar na hora. A professora notou a minha fugida pela tangente, e em excessos de palavras ásperas perguntou meu número e lançou qualquer coisa em seu diário. O mesmo procedimento foi feito com o resto da sala. A professora se ausentou da sala e deixou seu diário aberto sobre a mesa. Não faltaram curiosos para espiar que nota tinham tirado. Eu também fui deles. Só que para o meu azar, a professora chegou nesse exato momento, me pegou em flagrante debruçado sobre seu diário e mais dois desavisados que me rodeavam. Ao olhá-la, minha única reação foi dar um sorrisinho irônico de alguém que é pego com a boca na botija. Sua reação primeira também fora quase igual a minha. Pensei que tudo não fosse passar disso, acrescido de seus costumeiros berros em forma de pito. Para o meu desengano, num ápice de fúria, ela gritou: “Os três para a diretoria!”. Fomos guiados pelo seu olhar que mais parecia a corrente no pescoço de um cão exaltado. Chegando à diretoria, sua irritabilidade só aumentara, ela explicou em um segundo tudo o que havia acontecido, num gesto impensado, involuntário, jogou todo o material em cima da mesa e gritou para a diretora “Macedônia, eu quero suspensão!”. Novamente, pausando as sílabas: “Sus-pen-são!”. A diretora não teve outra saída, a não ser acatar o desejo impetuoso da professora. Enquanto isso ocorria, alguns outros tolos espionavam a janela da sala. A diretora não deixou por menos: “Quem apronta sempre serve de chacota pros outros!”. Para a minha sorte ou para o meu azar, os dias seguintes ao fato eram um longo feriado prolongado. O que significava que minha suspensão só ocorreria depois desse período de folga. Passei esses dias em desespero. Oscilando em cólicas, pensando se devia contar ou não a minha mãe o que tinha acontecido. Optei por não fazê-lo. E optei também por ir à aula no dia em que estava suspenso como se nada tivesse acontecido, crente de que ninguém ia perceber minha presença indevida. Já no segundo tempo, fui mais uma vez chamado pelas autoridades da escola que me convidaram a me retirar e disseram que eu só seria aceito depois que meus pais viessem à escola. No caminho para a casa, encontrei com minha irmã e lhe expliquei apressadamente tudo o que tinha se passado. Minha mãe não apareceu lá no dia seguinte.  Mas um belo dia, ela foi lá falar com a professora de Português. Conversaram um bom pucado de tempo na porta da sala. Depois que minha mãe foi embora, a professora virou-se para mim e disse: “Nossa, Thiago! Sua mãe é uma pessoa tão simpática!’. Era como se dissesse: “Nossa, Thiago! Sua mãe é uma pessoa tão boa e você um mau elemento desses!”. Para a minha mãe, ela disse outros absurdos. Disse que feitos como os meus, ainda o rolo dos diários, precisam ser reprimidos porque qualquer dia eu estaria falsificando cheques e acharia isso natural. Como é que é? Falsificando cheques? Desde quando um menino que um dia mexe no diário da professora, no outro começa a falsificar cheques? Não é impressão minha! Mas depois desse rolo dos diários, essa professora fez questão de me perseguir. Adquiriu por mim um ódio quase gratuito.Em tudo o que eu fazia, ela achava defeitos. Tudo o que eu falava, opinava, ela retrucava. Nunca dava o braço a torcer para mim. Caramba! Eu era bom aluno! Tudo isso por causa de um diário? No conselho de classe, ela foi a única a falar mal de mim e a única matéria em que fui com nota baixa foi a sua. Não sei se para a minha sorte ou para o meu azar, essa professora saiu da sala de aula e foi ser diretora da escola. Uma nova professora entrou e só então passei a ser visto com bons olhos. No ano seguinte, no 6º ano, reprovei, por causa de Matemática. No segundo 6º ano que fiz, a professora-diretora apareceu num dos conselhos de classe, era a oportunidade que ela queria. Fez questão de me discriminar com palavras como “repetente” e uma que eu nunca vou esquecer: “negligente!”Mas por que tudo aquilo? Eu nem sabia o que era significava ser “negligente”.

Porém, engana-se quem pensa que eu sempre fui um menininho comportadinho. Depois dessa, fui incontáveis vezes à diretoria pelos motivos mais distintos possíveis; guerra de água no pátio da escola, esquartejamento de mochila em forma de ursinho de alguma menina pentelha da sala, tiração de sarro de uma menina faminta pela merenda da escola, participação no assalto a um estojo de uma menina do 7º ano (a maior burrice de todas), isso sem falar nas vezes em que fui parar na diretoria como vítima. Isso sem falar ainda nas vezes em que cometi atos mais interessantes que nunca me renderam punição alguma, como o de passar a mão nas partes mais atrativas de meninas mais salientes.

11 anos depois, estou à frente de tudo isso: encaminhamento de alunos à diretoria, conselhos de classe e... Diários. Ah os diários! Como eles são infernais! Na semana passada, consumiram meu sono, meu café da manhã, meu almoço, meu jantar, meu descanso. Cheguei de ir dormir às 4 horas da manhã. Uma infinidade de pontinhos, Fs de falta, Xs, traços, curvas, retas. Uma geometria da estupidez. Tudo isso pra quê? Pra nada! Os diários não são vistos por ninguém. São simplesmente arquivados em caixas que ficam dentro da secretaria. Só que quando me avisaram disso, já era tarde. E mesmo se tivessem me avisado, eu teria sofrido da mesma forma. Agora já está tudo entregue Estou de férias. Quero lembrar apenas dos momentos de aprendizagem e distração que vivi na escola.

 

 

P.S. Calma! Esse não é mais um dos meus porres homéricos. É só mais uma das minhas apresentações. Dessa vez um casamento caipira que teve na festa julina da escola em que interpretei um padre bêbado. Foi legal. Quem viu, gostou.



Escrito por C.Y às 11h55
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Sentidos sem sentimentos...

Hoje pude sentir sua boca na minha pele sem nenhum pudor. Minhas mãos se desgovernaram em seu corpo. Não viram barreiras. Todo o silêncio durante tanto tempo contido se exaltou em sussurros de êxtase. As palavras eram ditas às claras, sem censura, sem puritanismo. Pedidos indecentes e tão sinceros, tão carregados de desejos e por isso mesmo tão prontamente atendidos. Às vezes, voluntariamente, antecediam até minha fala. Eu que já almejei tantas vezes ser o dominador de tudo, fiquei inerte diante do alvorecer da luxúria. A cama rangia, um ruído estranho contrastando com aqueles gemidos juvenis e feminis. As madeixas loiras tremulavam ao ritmo incessante de nossos corpos incansáveis. No teto, a luz amarela e barata revelava um casal em plena forma física de um lapso de amor e desmaterialização.

 

 

 

 



Escrito por C.Y às 01h14
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Morre o rei do POP... (Pedega Ou Pedófilo?)

Já que está todo mundo falando dele, vou também entrar na onda... Estava a caminho da escola, quando passei à frente de um ponto de táxi e ouvi de uma TV ligada qualquer coisa sobre Michael Jackson... Não consegui decifrar do que se tratava, continuei meu trajeto indiferente ao caso. Chegando à escola, uma aluna veio me confirmar o que eu nem suspeitei: Michael havia morrido. Porém, até então, ninguém tinha certeza sobre isso e nem maiores informações. Chegando à sala dos professores, o boato se confirmou. Uma das professoras comentou entusiasmadamente que gostaria de adquirir as músicas dele. A outra relembrou que gostaria de rever os clipes. Em tom de gracejo, comentei que já devia estar tudo mais que disponível no youtube e realmente estava. O grande Ariano Suassuna disse recentemente que fenômenos como Elvis Presley, Madonna e... Michael Jackson fatalmente desaparecerão em cinco séculos.... Pode ser que seja bem verdade. Mas há de se considerar que cinco séculos é um tempo considerável. Você se lembra do nome completo do seu tataravô? Não né? E olha que certamente deve fazer pouco mais ou menos de cem anos que ele morreu. Sempre que alguém dito celebre morre, não falta o comentário “nunca mais existirá outro Michael”. É óbvio. Não existirá outro Michael como não existirá outro Zé da padaria, quando esse morrer. Mas o que Zé da padaria faz de importante? Faz pão. Pão alimenta barriga, mas não alimenta sonhos. Não querendo desmerecer Seu Zé da padaria comparando-a a Michael, ambos cessam necessidades humanas diferentes. Não obstante, é preciso lembrar que alimentar sonhos é uma dádiva para poucos. Já pão, com uma boa receita na mão, é fácil de arriscar fazer alguns. E essa que é a grande diferença em ser anônimo e famoso. A fama só pode ser dada a quem realmente merece ser conhecido. A quem tem algo bom a oferecer às pessoas. E Michael tinha. Nunca fui fã de Michael. Nunca ouvi direito uma música sua. E vou continuar não ouvindo. Sua arte pop nunca me atraiu de fato. Mas quando ouvi falar em Michael morto, imediatamente me veio à tona as poucas lembranças que tenho dele. O pioneiro na moda de microfone de cabeça, a sua visita pomposa ao Brasil, o atropelamento do garoto, a sua interação com os tambores do Olodum que até hoje não sei como ele descobriu os baianos ou como os baianos o descobriram, os inconfundíveis passos que pareciam fazê-lo flutuar no ar, seus inúmeros sósias espalhados pelo mundo que tentam desajeitadamente imitar os trejeitos do ídolo e pensei principalmente nos inúmeros michaels, mycons, mykols, maicons, com todas as grafias possíveis, que nasceram simplesmente para satisfazer o gosto de pais que ficaram vidrados pelo cara que fazia zumbis levantarem das tumbas com o ritmo da dança.

Quando soube da morte de Michael, nessas pessoas todas que pensei. Não pensei no sujeito que dizem ser o rei do pop. A morte dele talvez me seja cruelmente indiferente. O que me aflige é como ficarão as pessoas em que ele deixou marcas indeléveis. Não só os sósias e homônimos, não só as pistas de danças, mas sobretudo para aquelas pessoas cujo único trecho de música dele é suficiente pra recarregar a mente de lembranças. A minha dúvida é como seguirão as pessoas que têm Michael na parede, que tem todos os discos dele na estante. É um luto que a sociedade mesquinha não é capaz de entender. Um luto particular para o qual prefeitos não baixam bandeiras no mastro, não decretam feriados, um luto para o qual ninguém se veste de preto, um luto para o qual a lei não garante cinco dias de reclusão em casa e longe do serviço. É um luto que as pessoas que o sentem têm de esconder, para não parecerem tolas diante da morte de alguém que está tão longe. Só que poucos são capazes de entender que um ídolo nunca está longe. Um ídolo está sempre perto. É um confidente que nos atende 24 horas, sempre que nos deparamos com uma de suas obras. Os fãs poderão continuar desfrutando desse atendimento em tempo integral, no entanto, é a prematuridade de tudo isso que os deixam confusos sem saber que sentimento sentir. Levará algum tempo até que consigam distinguir as dores e felicidades diante da passagem de Michael pela Terra.

Agora, especula-se tudo. Quantas cirurgias Michael fez no nariz? Ele disse que só uma. Como ele conseguiu ficar branco? Que remédios tomou? Era viciado em calmantes? Para quem ficará o rancho de Neverland? Com quem ficará os filhos? Com a avó que ligou para a casa do filho recém-morto perguntando a empregada onde ele guardava dinheiro? Com a mãe biológica que apareceu do nada? A mídia reconta todos os dias as mesmas histórias, todo mundo se tornou co-biógrafo de Michael. Mas fica ainda a maior dúvida de todas: Michael era realmente pedófilo? Eu sinceramente acredito que não. É muito fácil para um pai sabendo da possibilidade de ganhar 25 milhões de dólares convencer o filho a fantasiar coisas que não aconteceram. A ciência prova que uma regressão mal feita, uma má reconstituição dos fatos é capaz de induzir nossa memória a ter lembrança de fatos que nunca ocorreram. Não deve ser muito difícil haver isso também com uma criança. Quem processou Michael, só estava em busca de uma coisa: dinheiro. Ninguém se importou fielmente com a integridade física ou psicológica dessas crianças que hoje já são homens e talvez melancolicamente consigam entender o que os pais fizeram e no que os envolveram. Tudo leva a crer que Michael era um homem perturbado. Um garoto que teve uma infância horrorosa provocada pelo pai só podia mesmo não querer crescer, viver na terra do nunca rodeado de crianças, recuperar um tempo perdido que não se pode achar nunca mais depois que se perde. E Michael não achou. Foi essa a sua infelicidade. Descobriu tarde que não se pode mais ser criança depois que chega a idade adulta. Podia ser tão fácil para o mundo entender isso. Mas o mundo não entendeu, pelo contrário, o condenou. Somente quem esteve muito perto de Michael soube quem realmente ele era. E quem soube parece não ter queixa alguma dele. É certo que é difícil alguém falar de desvios de conduta de alguém que acaba de morrer. Só que independente de Michael ser pedófilo ou qualquer outra coisa, uma obra artística nunca pode ser esquecida independente do que seu autor tenha feito antes ou depois dela. Sei o que é perder um ídolo. Senti isso na pele quando os Mamonas Assassinas se foram. Muitos gracejam como será quando eu perder o meu ídolo-maior. Isso acontecerá e certamente será triste. Mas eu já assisti um show dele e pelo menos trisquei nos seus dedos. E o mundo que nunca viu Michael nem de longe e nem de perto? Só assiste tudo pela TV? Mais essa... Michael inovou até na forma de morrer. Um velório-show foi feito. Vai virar moda com certeza! Pra ser mais show ainda, só falta Michael levantar da tumba como no cilpe de Thriller.

 



Escrito por C.Y às 03h51
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




O Sonho Da Menina De Coração Cor-De-Rosa...

A primeira vez que ouvi falar dela, assim como todo mundo, claudiquei no seu nome sem homônimos. Sem mais nem menos, pelos corredores, passamos a trocar contidos cumprimentos. Mas já pude notar... A pele rosada (por coincidência ou não, sua cor preferida). Os olhos sob uma meiguice intensa, penetrante. A fala idílica capaz de transformar quase todos os diálogos em cantigas. Porém, suas frases eram sempre previsíveis. E foi aí que eu realmente soube quem ela era e quem ela é... Uma menina apaixonada! Daquelas que não se fazem mais recentemente. A cada dez palavras que ela falava, onze ela dizia o nome do namorado, que já foi noivo e agora é marido! Tive certeza de que se tivesse que cortejar alguém da sala, com certeza não seria ela! Então, tornamo-nos amigos talvez pela casualidade do infortúnio de termos que dividir todas as noites a mesma condução lotada, o que sempre inspira conversas mesmo que entre pessoas vagamente próximas. Por meio desse contato diário, nossas vidas foram se conhecendo, também se tornaram amigas, ainda que uma nunca tenha visitado a outra.  E durante esses três anos, vi que ela não mudou em um milímetro o amor dado ao rapaz que conhecera cinco anos antes. O romance é rodeado de dúvidas, de medos. Não dos protagonistas da história, é claro, e sim, dos alheios. Surgem prováveis rótulos... “Ingênua”? “Imatura”? “Inconseqüente”? “Precipitada”?... Alguém lembra que ela ama?

Talvez não. Mas eu lembro. Por isso a admiro. E não só por isso. Admiro pessoas que acreditam em sonhos. Quaisquer que sejam. Casar ou comprar uma bicicleta. Ela casou sem se importar com nada. Ignorou a opinião das amigas mais íntimas. Ignorou a sociedade estúpida, preconceituosa e enxerida. Ignorou as conturbações financeiras em que todos vivemos. Ignorou até os próprios instintos. O que dizer a uma menina assim?

Felicidades, minha cara! E obrigado mais uma vez pelo convite! Para mim foi uma honra. Eu adoro você e você sabe disso!

 

 

 

 

 



Escrito por C.Y às 16h15
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Adeus definitivo

Chega de msn! Chega de orkut! Chega de blog!

A onda agora é o twitter!



Escrito por C.Y às 23h53
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 



Meu perfil
BRASIL, Centro-Oeste, CAMPO GRANDE, Homem, de 20 a 25 anos, Música, Livros
Histórico
Outros sites
  Fabrício Carpinejar
  As estações humanas
  Fé Cega
  Milagres do vento
  twitter
Votação
  Dê uma nota para meu blog