Gritos e Risos!


Segredos de Fátima

Fui criança só às vezes. E as vezes em que fui mais criança foi quando estive em  Fátima do Sul. Uma  cidade do interior, um lugar pequeno onde não tem muito a se fazer, senão viver. Nessa pequenina partícula de mundo, moram minha avó, minhas tias, meus padrinhos e minhas primas que tentei por diversas vezes buli-las sem sucesso. É onde também reside meu único primo, meu único parente com quem consigo ter de fato alguma afinidade. Apesar de nos relacionarmos mais pela internet, pois sempre que nos encontramos pessoalmente ficamos olhando um para o outro com cara de bobo como se fôssemos estranhos. E somos. Mas a estranheza só dura até o próximo encontro no msn. Ele tem 15 anos e é de uma inteligência surpreendente. Sabe de coisas que eu só fui saber quando tinha mais de 20. E sabe de outras que eu não sei até hoje. É entendido de todos os ismos da vida; socialismo, nazismo, fascismo, bolchevismo, capitalismo, e etctrismo. Isso pra mim é tudo ainda muito grego. Durante anos levei uma vida muito fútil. E agora tenho tentado aos poucos me recompor. Mas é difícil, a minha defasagem cultural é muito grande. E muitos acham que sou um “gigante intelectual” porque sou professor e me formei em Letras. Como são tolos! Mas eu falava é da minha doce Fátima...

Como é comum em cidades pequenas, o tempo passa e quase nada muda. Os pontos turísticos continuam sendo os mesmos, apenas com algumas alterações. Como era de se esperar, o principal ponto daqui é uma praça. Já a visitei hoje. E o fiz obviamente carregado de lembranças. Que sensação estranha pisar o chão que meus pés outrora bem menores também pisaram. Ainda está lá o mesmo coreto. Aquele onde nunca houve nenhuma apresentação. Só serviu de palco para as minhas correrias de criança entre mim e minhas primas. Já quase não existem gramados, aqueles onde rolávamos e voltávamos para a casa com o cabelo cheio de folhas e capins e o corpo envolto em coceiras. Não encontrei nenhuma daquelas torneiras à beira da rua, nas quais íamos tomar água e quase tomávamos banho tamanho jato d’água. E mais tristemente e lamentavelmente não existe mais o parquinho, o que a minha menor das sobrinhas me revelou hoje aos prantos. Era o parquinho a pedida de todo fim de tarde. Lá havia um disputadíssimo balanço. Naquela época, nossa única cobiça era termos um adulto por perto com braços incansáveis para nos empurrar bem forte. Nessas horas, eu sempre achava que alcançava o céu e alcançava mesmo. Todos os meus problemas do meu pequeno mundinho se resolviam ali. Nem se quisesse me iludir novamente, poderia. Não existe mais o parquinho. O que existe é uma casa de Papai Noel que obviamente só decorada no fim do ano.  Daquele tempo mesmo, o que existe em maior número são os bancos que agora receberam um cercado em volta para proteger o que resiste de jardim. Estranho aprisionar a delicadeza para protegê-la, quando o que ela mais precisa é de liberdade para sobreviver. Mas em Fátima eu também fui muito triste, nesta cidade eu tive certeza de que amo minha mãe e chorei em silêncio, no escuro, todas as mais tristes e mais sentidas lágrimas que a sua ausência me provocou, a desestrutura do meu pequeno mundo.

Estou numa lan house, as daqui fecham tarde. Aqui, Riobaldo, viver não é perigoso.

 

P.S. “A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores e o mesmo jardim. Tudo é igual, mas estou triste porque não tenho você perto de mim!”

Os bregas também amam!



Escrito por C.Y às 00h06
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