“eu disse adeus”
“- Pode me dizer que caminho devo seguir? -Isso depende do lugar onde você quer ir - Não tenho destino certo. - Nesse caso, qualquer caminho serve. - Servirá se levar a algum lugar” O trecho acima é o dialogo entre Alice e o Gato careteiro em Alice no País das Maravilhas. Acho que foi lendo isso que realmente consegui chegar a uma decisão final. Em poucos segundos, consegui pensar, lembrar e resolver uma vida inteira. Então, quando não se tem um destino, qualquer caminho serve? Nesse caso, tanto faria eu ficar no pneu ou ficar nas idas e vindas pelas escolas em que estou. Mas acho que tenho comigo um destino. Quando entrei no pneu, o meu objetivo era ficar por lá só um ano. Fiquei lá três anos e meio. Tempos demais para mim que só queria um meio de custear as mensalidades da faculdade. A faculdade acabou e eu ainda fiquei lá mais meio ano após o término dela. Em abril, surgiram as aulas à noite. Até aí, tudo se conciliando. Pneu de manhã, preparação de aulas à tarde e à noite, regência. Tudo tranquilo. Afinal, já estava mesmo acostumado como duplas jornadas. Foi assim nos anos de faculdade. Nesse ínterim, sempre dizia comigo que assim que aparecesse uma oportunidade de emprego, um contrato de seis meses numa pública ou uma vaga na particular, eu largaria o pneu sem titubear. A oportunidade apareceu na tarde de 14 de setembro passado. Estava me preparando para sair de casa para ir até a biblioteca do centro onde estudaria para um concurso que fiz dias atrás e não tive sucesso algum quando o telefone tocou. Era a coordenadora de uma escola que eu nunca tinha ouvido falar e muito menos tinha deixado currículo lá me dizendo que eu tinha sido indicado por não-sei-quem de não-sei-de-onde e que deveria comparecer à escola naquela mesma tarde para uma entrevista. Fizeram as velhas perguntinhas de sempre. as típicas “tem experiência”, “onde você já trabalhou”, “onde você estudou”, “você acha que dá conta”. Verdade aqui, mentirinha lá, aumentadinhas acolá. Acabei sendo convincente. Caí nas graças da coordenadora e diretora, gostaram principalmente da parte em que disse que ia entrar no mundo dos alunos. Fui chamado para fazer uma aula-teste no dia seguinte. O que me tomou de imenso pavor. Me senti totalmente despreparado. Senti que de fato tinha feito o pior curso do mundo. Pois na faculdade nem lembro de se ter comentado de situações parecidas. A coordenadora me ofereceu livros para preparar e sugeriu sugerir um conteúdo. “Tudo, menos orações subordinadas!”. Foi o que pensei comigo. Não deu outra. Esse foi o conteúdo escolhido. Nisso, meu pavor só aumentou. “Passos indecisos caminhei” até uma mesa de lanchonete onde tomei um suco enquanto folheava os livros pensando no que poderia fazer naquela aula. Comprei caderno e caneta e fui pra biblioteca rabiscar alguma coisa. Mas acho que fiz isso mais pra me enganar mesmo. Eu não sabia direito o conteúdo. Queria só um lugar calmo para estudar com calma. Acho que consegui aprender o suficiente naqueles instantes. A minha aula acho que foi boa. A plateia é que não colaborou. Alunos constantemente inquietos, indisciplinados, desrespeitosos, infantis, metidos a besta, insuportáveis, a grande maioria é assim lá. A cada ressalva é comum se ouvir “eu pago essa p*rra e faço o que eu quiser” Coordenação? Não adianta. Direção? Não adianta. Pais? Não adianta. A cada reprimenda eles retornam mais vitoriosos e agressivos. Nada os detêm. São sem limites. E assim tem sido e também o foi no meu primeiro dia, o de teste. A sala pegando fogo de todas as maneiras e o diretor passeando nos corredores para ver o que acontecia lá dentro. Nesse momento, pensei: “to demitido”. Depois ele me chamou na sala dele e me disse “passei lá, tava tranquilo!’ Um Dom Quixote! Não há o que negar. Depois de duas semanas de desespero, resolvi entregar as pontas. Pegar meu banquinho, sair de fininho e voltar pro pneu no qual eu já estava levando inúmeras faltas. Procurei a diretora e expus minhas razões para minha demissão. “Como você vai fazer isso comigo?”. Essa foi uma das objeções que ela me fez. Combinamos de eu corrigir as provas que alguém aplicaria no dia seguinte, fechar as notas e tchau. No dia seguinte, a história mudou. A professora que iria me substituir não apareceu. O que lhes deu tempo para me convencer ficar lá novamente, no inferninho. Mas ainda farei o possível para mudar alguma coisa por lá, já que o mundo não é mesmo possível. Nisso, o meu objetivo era apenas pedir o meu afastamento de dois ou três anos do pneu. Já que depois de três anos de estágio probatório, isso é possível. E eu já estava lá há três anos e meio. Pensei que fosse chegar e pedir e já estaria tudo resolvido. Mas os recursos humanos são sempre desumanos e impuseram-me uma infinidade de empecilhos. Eu não poderia pedir afastamento porque minha estabilidade ainda havia sido publicada no diário oficial. Eu poderia fazer o pedido que seria analisado pela chefe do CCZ e quase-certeza que negado. No entanto o fiz. E não tive respostas, só faltas. Nesse ínterim pneu x escola, fui também chamado para dar aula à tarde numa substituição de 30 dias. O que foi também um estímulo para abandonar o pneu e transformou minha vida numa escassez total de tempo e num excesso tremendo de correria. Terças, quartas e quintas, aulas de manhã. Quartas, quintas e sextas, aulas à tarde. De segunda à sexta, aulas à noite. Resumindo: segunda, aula só à noite; terça, aula de manhã e à noite; quarta, aula de manhã. Tarde e à noite, com a vantagem que de manhã são só os primeiros tempos; quinta, três turnos novamente e o dia mais corrido, pois de manhã saio 11:20 e quase não tenho tempo de almoçar, motivo pelo qual tenho andado de moto-táxi e almoçado pela rua ou comendo salgados vagabundos o que tem acabado com meu estômago e meu bolso; sexta, aula à tarde e à noite, mas de tarde só dois e à noite, só três! Beleza! Minha vida tem sido essa! Essa semana, dei minha grande tacada final. Pedi as contas de vez da prefeitura. Já que me negaram o afastamento e em breve eu poderia ser exonerado por um tal “abandono de cargo público”. Me fizeram inclusive a indecente proposta de eu voltar a trabalhar enquanto vinha a resposta do afastamento que com certeza já seria não! Levei os uniformes todos e agora nunca mais voltarei pra lá... Só lembranças de um tempo que passou! 
Escrito por C.Y às 03h10
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