Indigentes poéticos
Peter era seu nome. Na verdade, era Pedro. Mas ele adorava que o chamasse pela pronúncia americana. Até hoje, poucos sabem que seu nome era simplesmente Pedro. Peter, um jovem rapaz de 30 e poucos anos, ativo comerciante da vila. Dono da padaria Pão de Açúcar. Para mim, aquele pão era só de açúcar mesmo, só depois de muito tempo, fui saber que o nome do estabelecimento podia ser uma alusão a uma imensa pedra carioca. Mas a padaria de Pedro era tudo menos padaria. Era uma parada obrigatória nas entradas e saídas da escola que ficava bem de frente de sua padaria. Às dez pra sete, às dez pra uma, depois das onze da manhã e depois da cinco da tarde o ambiente tornava-se impenetrável. Uma porção de meninos uniformizados, apressados e com pouquíssimo dinheiro adentravam ao lugar querendo ser pequenos donos do mundo que ali se vendia. Balas, chicletes, paçocas, gelinhos, bolitas, skines, sonhos, salgados, tubaína no saquinho. Peter jamais se confundia. Mesmo com todo aquele burburinho de moleques, sabia exatamente o que cada um havia pedido e quanto devia dar de troco para cada. No fim, todos saiam satisfeitos depois da tumultuada espera para ser atendido. Eu também fui um fiel cliente de Peter. Comprei maciçamente as figurinhas de álbuns cujos prêmios nunca chegavam. Ou se chegavam era um resta 1, um jogo de damas, um jogo de copos, um dominó, um jogo da memória. Mas as televisões gigantes e as bicicletas de marchas inumeráveis, essas nunca chegavam. Meu pai me alertava para a enganação. Como se fosse possível alertar alguém contra os perigos de um sonho. A cada moedinha lá ia eu correndo comprar mais pacotes de figurinha. Lembro uma vez meu pai me deu um real, que naquela era muito dinheiro para uma criança, fui correndo buscar pacotes. Afinal, faltavam só algumas figurinhas e comprando bastante com certeza eu ia conseguir completar o álbum. Ledo engano. As figurinhas vieram todas repetidas. Troquei com um amigo, que minha família resolveu batizar não sei por que cargas d’água de “cara de coruja”, mas ele também já tinha quase todas, trocamos uma ou outra, as demais foram perdidas. Eu acabei por não completar meu álbum da Street Fighter. Eu nem gostava do jogo, mas completar aquele álbum era questão de honra. Nem preciso dizer da desonra que sofri nessa. Continua...
Escrito por C.Y às 15h27
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