Gritos e Risos!


Uísques e Orquídeas

Definitivamente, a faculdade não me faz falta. Enquanto estava fazendo o curso, ficava sempre imaginando como seria tudo depois que ele acabasse. Temia nunca mais ver aquelas pessoas com que estudei. Foi sempre o que aconteceu com os meus tão coesos grupos que fiz na escola. No ensino fundamental e médio, juras de amizade eterna e promessas de encontros constantes não faltaram. No entanto, o tempo foi passando e cada um foi se debandando para um lado e desapareceram. Trocam- se números de telefone sem aviso. Esquecem-se endereços. Esquecem-se pessoas. Um dia, um encontro casual na rua, reaviva tudo em cinco minutos de conversa. Um como-vai-o-que-tem-feito, uma mexidinha no passado e a promessa de se marcar algo “qualquer dia desses”. Um dia que nunca chega. Com o advento da internet, pessoas distantes até mantêm algum contato de vez em quando. Mas no mais das vezes, não passam de pessoas penduradas na lateral dá página inicial do Orkut. Era o que eu temia que acontecesse com os meus amigos da faculdade. Com os da escola, depois de um ano findado, nunca se marcava uma mísera reunião. Não marcar encontros era uma forma de adeus inaudível. O íntimo de repente se tornava um estranho.

Outro dia, encontrei com o meu maior amigo de infância. Eu estava de a pé e ele montado numa moto, talvez a única coisa que ele tenha conseguido na vida, até hoje. Conversamos cerca de 40 segundos. Creia! Foram os piores 40 segundos da minha vida. Não tinha assunto. Mesmo com tanto tempo sem a gente se ver, parecia que eu não tinha novidade alguma para contar pra ele. Tudo que eu pensava em lhe contar me parecia que não ia despertar o seu interesse. Definitivamente, eu não sabia quem era o cara que eu tinha diante de mim. E um cara que empurrou carrinho comigo a minha infância inteira. O meu temor era que os amigos da faculdade com o tempo fossem se definhando nessa forma de relacionamento. Só isso me dava a vontade de nunca terminar a faculdade. Tinha a vinda da depressão como certa. E na verdade, chega uma hora em que a faculdade precisa acabar. É insustentável tanta pressão. Uma infinidade de matérias, a monografia que parece nunca desenroscar. Tudo isso vai nos dando  gastura. E você não vê a hora do ano estrebuchar para você se ver livre de tudo. E chega o momento que o preço da sua paz parece ser perder todos os amigos que você conquistou. Alguns eu sei que talvez não veja nunca mais mesmo. Não me importo com eles, pois quem se importa comigo me procura. E com quem eu me importo, eu procuro e me encontro entre goles de uísque e o aroma das orquídeas.

 

 

 

 



Escrito por C.Y às 01h45
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