A deusa da justiça
Ele não queria mexer no passado, mas o passado parecia querer mexer nele. Olhou desencorajado a comida que havia na panela. Só o mesmo cardápio de sempre: arroz, feijão e bife. Tudo feito por ele mesmo, às pressas e sem nenhuma dedicação. Um faminto temente a Deus talvez lhe lembrasse que ele tinha motivos para dar graças aos céus. Mas ele só tinha mesmo motivos para lamentar. Arroz, feijão e bife era a única coisa que ele sabia fazer. E além do mais, não gostava nenhum pouco de cozinhar. Achava cozinhar para si mesmo o cúmulo da solidão. Não suportava a ideia de mastigar a comida e sentir nela o gosto de suas mãos. Ou sentir entranhado em suas unhas o perfume do alho. Para engolir a comida, só mesmo à base de goles de coca-cola. Foi o que pensou. Reuniu as únicas moedas que ainda restavam esquecidas no fundo de uma gaveta e foi para as ruas levando um casco nas mãos, um casco tão vazio quanto ele mesmo. O estabelecimento que vendia a coca não era um bar, era uma lojinha de importados contrabandeados do Paraguai. Lá, uma moça gigantescamente gorda atendia. Suas vestes pareciam lençóis cobrindo móveis numa casa velha. Mas ela parecia sorrir de acordo com seu peso. Era sempre tão simpática. Tão atenciosa. Tão meiga. Que ele mesmo se sentia constrangido de ter qualquer pensamento maldoso referente a toda àquela gordura da menina. Ele não entendia como ela conseguia ter tanta auto-estima mesmo sendo tão gorda. Afinal, que homem seria capaz de desejá-la? Há quanto tempo ela já não fazia sexo? Será que ela ainda era virgem como aquela cantora de um programa de calouros americano? Sua dúvida era logo sanada quando via umas criancinhas gritando “mãe”, “mãe”. Ela tinha filhos. Isso significava que ela tinha feito sexo ao menos para ter aqueles filhos. Ou seriam adotados? Ou seriam sobrinhos? Mas ela não tinha mais marido. Será que algum dia ela tinha sido uma moça bonita e magérrima e à medida que foi engordando, o marido foi deixando-a até deixá-la de vez. Tudo isso pensava enquanto a gorda se debruçava no freezer para busca a coca-litro. Também enquanto pensava nessas coisas, notou exposta na prateleira uma deusa da justiça em miniatura. Nunca tinha visto uma daquela tamanho, elas eram sempre gigantes como aquela que tem no centro da cidade em algum órgão da justiça. Mas aquela não. Era pequenina. Podia-se segurar na palma da mão. Triscar na balancinha que ela também trazia pendente. E olhar bem de perto para tentar adivinhar o que olhos vendados escondiam. Nunca fora experto em mitologia, mas sabia que aquela era a deusa da justiça. E mais do que isso lembrou na mesma hora que aquele dia era dia do aniversário da menina que por anos julgou amar e que agora é formanda em direito. E lembrava da data não apenas porque era aniversário de quem era, mas porque aquela data de traz pra frente tinha se transformado em muitas das suas senhas de banco e de e-mails. Tamanha obsessão. E toda vez que precisava criar uma nova senha repetia involuntariamente de propósito a mesma sequencia de números embaralhados. A gorda já tinha voltado com a coca. E ele perguntou o preço da pequena estatueta. Como se isso fizesse alguma diferença. Ele daria tudo o que não tinha para levá-la para a casa. Foi para a casa e voltou com mais dinheiro para tentar forjar uma pechinha. Tudo o queria era pôr em risco o ato insano. Conseguiu um ou outro real de desconto. Voltou para a casa com o garboso embrulho. Entrou em casa tentando esconder o presente dos olhos curiosos dos ausentes. Ligou para ela. Deu um tímido parabéns e exigiu que viesse buscar o presente. Agora eram amigos. Mas ele não sabia se havia comprado o presente por recaída ou por amizade. Esperou. Ela não veio. A deusa da justiça foi injusta. Gostaria de arremessar o bibelô, afinal agora aquilo já era um bibelô, à parede e estilhaçar o objeto em mil pedaços. Ou guardar para quem merecesse. Talvez a gorda da loja. Talvez ela fosse mais sincera. 
Escrito por C.Y às 23h47
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