Sentidos sem sentimentos...
Hoje pude sentir sua boca na minha pele sem nenhum pudor. Minhas mãos se desgovernaram em seu corpo. Não viram barreiras. Todo o silêncio durante tanto tempo contido se exaltou em sussurros de êxtase. As palavras eram ditas às claras, sem censura, sem puritanismo. Pedidos indecentes e tão sinceros, tão carregados de desejos e por isso mesmo tão prontamente atendidos. Às vezes, voluntariamente, antecediam até minha fala. Eu que já almejei tantas vezes ser o dominador de tudo, fiquei inerte diante do alvorecer da luxúria. A cama rangia, um ruído estranho contrastando com aqueles gemidos juvenis e feminis. As madeixas loiras tremulavam ao ritmo incessante de nossos corpos incansáveis. No teto, a luz amarela e barata revelava um casal em plena forma física de um lapso de amor e desmaterialização. 
Escrito por C.Y às 01h14
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Morre o rei do POP... (Pedega Ou Pedófilo?)
Já que está todo mundo falando dele, vou também entrar na onda... Estava a caminho da escola, quando passei à frente de um ponto de táxi e ouvi de uma TV ligada qualquer coisa sobre Michael Jackson... Não consegui decifrar do que se tratava, continuei meu trajeto indiferente ao caso. Chegando à escola, uma aluna veio me confirmar o que eu nem suspeitei: Michael havia morrido. Porém, até então, ninguém tinha certeza sobre isso e nem maiores informações. Chegando à sala dos professores, o boato se confirmou. Uma das professoras comentou entusiasmadamente que gostaria de adquirir as músicas dele. A outra relembrou que gostaria de rever os clipes. Em tom de gracejo, comentei que já devia estar tudo mais que disponível no youtube e realmente estava. O grande Ariano Suassuna disse recentemente que fenômenos como Elvis Presley, Madonna e... Michael Jackson fatalmente desaparecerão em cinco séculos.... Pode ser que seja bem verdade. Mas há de se considerar que cinco séculos é um tempo considerável. Você se lembra do nome completo do seu tataravô? Não né? E olha que certamente deve fazer pouco mais ou menos de cem anos que ele morreu. Sempre que alguém dito celebre morre, não falta o comentário “nunca mais existirá outro Michael”. É óbvio. Não existirá outro Michael como não existirá outro Zé da padaria, quando esse morrer. Mas o que Zé da padaria faz de importante? Faz pão. Pão alimenta barriga, mas não alimenta sonhos. Não querendo desmerecer Seu Zé da padaria comparando-a a Michael, ambos cessam necessidades humanas diferentes. Não obstante, é preciso lembrar que alimentar sonhos é uma dádiva para poucos. Já pão, com uma boa receita na mão, é fácil de arriscar fazer alguns. E essa que é a grande diferença em ser anônimo e famoso. A fama só pode ser dada a quem realmente merece ser conhecido. A quem tem algo bom a oferecer às pessoas. E Michael tinha. Nunca fui fã de Michael. Nunca ouvi direito uma música sua. E vou continuar não ouvindo. Sua arte pop nunca me atraiu de fato. Mas quando ouvi falar em Michael morto, imediatamente me veio à tona as poucas lembranças que tenho dele. O pioneiro na moda de microfone de cabeça, a sua visita pomposa ao Brasil, o atropelamento do garoto, a sua interação com os tambores do Olodum que até hoje não sei como ele descobriu os baianos ou como os baianos o descobriram, os inconfundíveis passos que pareciam fazê-lo flutuar no ar, seus inúmeros sósias espalhados pelo mundo que tentam desajeitadamente imitar os trejeitos do ídolo e pensei principalmente nos inúmeros michaels, mycons, mykols, maicons, com todas as grafias possíveis, que nasceram simplesmente para satisfazer o gosto de pais que ficaram vidrados pelo cara que fazia zumbis levantarem das tumbas com o ritmo da dança. Quando soube da morte de Michael, nessas pessoas todas que pensei. Não pensei no sujeito que dizem ser o rei do pop. A morte dele talvez me seja cruelmente indiferente. O que me aflige é como ficarão as pessoas em que ele deixou marcas indeléveis. Não só os sósias e homônimos, não só as pistas de danças, mas sobretudo para aquelas pessoas cujo único trecho de música dele é suficiente pra recarregar a mente de lembranças. A minha dúvida é como seguirão as pessoas que têm Michael na parede, que tem todos os discos dele na estante. É um luto que a sociedade mesquinha não é capaz de entender. Um luto particular para o qual prefeitos não baixam bandeiras no mastro, não decretam feriados, um luto para o qual ninguém se veste de preto, um luto para o qual a lei não garante cinco dias de reclusão em casa e longe do serviço. É um luto que as pessoas que o sentem têm de esconder, para não parecerem tolas diante da morte de alguém que está tão longe. Só que poucos são capazes de entender que um ídolo nunca está longe. Um ídolo está sempre perto. É um confidente que nos atende 24 horas, sempre que nos deparamos com uma de suas obras. Os fãs poderão continuar desfrutando desse atendimento em tempo integral, no entanto, é a prematuridade de tudo isso que os deixam confusos sem saber que sentimento sentir. Levará algum tempo até que consigam distinguir as dores e felicidades diante da passagem de Michael pela Terra. Agora, especula-se tudo. Quantas cirurgias Michael fez no nariz? Ele disse que só uma. Como ele conseguiu ficar branco? Que remédios tomou? Era viciado em calmantes? Para quem ficará o rancho de Neverland? Com quem ficará os filhos? Com a avó que ligou para a casa do filho recém-morto perguntando a empregada onde ele guardava dinheiro? Com a mãe biológica que apareceu do nada? A mídia reconta todos os dias as mesmas histórias, todo mundo se tornou co-biógrafo de Michael. Mas fica ainda a maior dúvida de todas: Michael era realmente pedófilo? Eu sinceramente acredito que não. É muito fácil para um pai sabendo da possibilidade de ganhar 25 milhões de dólares convencer o filho a fantasiar coisas que não aconteceram. A ciência prova que uma regressão mal feita, uma má reconstituição dos fatos é capaz de induzir nossa memória a ter lembrança de fatos que nunca ocorreram. Não deve ser muito difícil haver isso também com uma criança. Quem processou Michael, só estava em busca de uma coisa: dinheiro. Ninguém se importou fielmente com a integridade física ou psicológica dessas crianças que hoje já são homens e talvez melancolicamente consigam entender o que os pais fizeram e no que os envolveram. Tudo leva a crer que Michael era um homem perturbado. Um garoto que teve uma infância horrorosa provocada pelo pai só podia mesmo não querer crescer, viver na terra do nunca rodeado de crianças, recuperar um tempo perdido que não se pode achar nunca mais depois que se perde. E Michael não achou. Foi essa a sua infelicidade. Descobriu tarde que não se pode mais ser criança depois que chega a idade adulta. Podia ser tão fácil para o mundo entender isso. Mas o mundo não entendeu, pelo contrário, o condenou. Somente quem esteve muito perto de Michael soube quem realmente ele era. E quem soube parece não ter queixa alguma dele. É certo que é difícil alguém falar de desvios de conduta de alguém que acaba de morrer. Só que independente de Michael ser pedófilo ou qualquer outra coisa, uma obra artística nunca pode ser esquecida independente do que seu autor tenha feito antes ou depois dela. Sei o que é perder um ídolo. Senti isso na pele quando os Mamonas Assassinas se foram. Muitos gracejam como será quando eu perder o meu ídolo-maior. Isso acontecerá e certamente será triste. Mas eu já assisti um show dele e pelo menos trisquei nos seus dedos. E o mundo que nunca viu Michael nem de longe e nem de perto? Só assiste tudo pela TV? Mais essa... Michael inovou até na forma de morrer. Um velório-show foi feito. Vai virar moda com certeza! Pra ser mais show ainda, só falta Michael levantar da tumba como no cilpe de Thriller. 
Escrito por C.Y às 03h51
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